Papuguinho: aplicativo gratuito auxilia na comunicação de crianças neurodivergentes

Crianças que apresentam dificuldades de fala ou de comunicação podem precisar de outros recursos para expressar necessidades, sentimentos, escolhas e pensamentos. Pensando nesse público, estudantes do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus Jacareí, desenvolveram o Papuguinho, um sistema gratuito de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).
A ferramenta foi criada especialmente para auxiliar crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras pessoas que enfrentam dificuldades para se comunicar por meio da fala. O aplicativo já está disponível gratuitamente e pode ser acessado em diferentes formatos.
A iniciativa foi divulgada pelo Ministério da Educação (MEC) em agosto de 2026 como uma tecnologia voltada à ampliação das possibilidades de comunicação de crianças neurodivergentes.
O que é o aplicativo Papuguinho?
O Papuguinho é um sistema de Comunicação Aumentativa e Alternativa, também conhecida pela sigla CAA.
Esse tipo de comunicação reúne estratégias e recursos utilizados para complementar ou oferecer alternativas à fala. Podem ser empregados símbolos, fotografias, figuras, gestos, palavras escritas, pranchas de comunicação e dispositivos eletrônicos.
No Papuguinho, a criança pode tocar em pictogramas e organizar palavras e expressões na tela. Em seguida, o aplicativo reproduz em áudio a mensagem construída. Dessa maneira, ela encontra um meio mais acessível para comunicar aquilo que deseja, pensa ou sente.
Por exemplo, a criança poderá utilizar os símbolos para expressar mensagens como:
- “Estou com fome”;
- “Quero brincar”;
- “Preciso ir ao banheiro”;
- “Estou triste”;
- “Quero água”;
- “Não gostei”;
- “Preciso de ajuda”.
Além de favorecer a expressão de necessidades básicas, o recurso pode contribuir para que a criança participe de conversas, faça escolhas e interaja com mais autonomia em diferentes situações.
Para quem o Papuguinho foi desenvolvido?
Embora tenha sido pensado principalmente para crianças com Transtorno do Espectro Autista, o aplicativo pode ser utilizado por pessoas que apresentem dificuldades de fala e interação.
Cada pessoa, entretanto, possui necessidades comunicativas diferentes. Por isso, o uso de um recurso de CAA precisa considerar aspectos como idade, desenvolvimento, compreensão, coordenação motora, interesses, rotina e formas de comunicação já utilizadas.
A simples disponibilização do aplicativo não garante que a criança compreenderá imediatamente todos os símbolos. Ela pode precisar de acompanhamento, exemplos e oportunidades reais de utilização durante a rotina.
Como funciona o Papuguinho?
O sistema apresenta pranchas visuais compostas por pictogramas coloridos. A pessoa seleciona os símbolos na tela para construir uma mensagem, que pode ser reproduzida em áudio pelo aplicativo.
O projeto também oferece o Estúdio Papuguinho, uma ferramenta que possibilita:
- personalizar as pranchas de comunicação;
- modificar as imagens dos pictogramas;
- criar novos recursos;
- organizar símbolos conforme a rotina da criança;
- imprimir pranchas para utilizar fora das telas.
A possibilidade de personalização é especialmente importante porque uma prancha de comunicação precisa fazer sentido para quem a utiliza. Os símbolos mais adequados dependerão dos ambientes frequentados, das pessoas com quem a criança convive e das situações que fazem parte de seu cotidiano.
Uma criança pode precisar, por exemplo, de símbolos relacionados à alimentação, à higiene, aos brinquedos e aos familiares. No ambiente escolar, podem ser necessários pictogramas referentes às atividades, aos materiais, aos espaços da escola, aos colegas e aos professores.
O aplicativo pode ser utilizado na escola?
O Papuguinho pode ser utilizado em diferentes ambientes, incluindo a escola, desde que seu uso esteja alinhado às necessidades da criança.
No contexto escolar, a ferramenta poderá apoiar situações como:
- escolha de atividades e materiais;
- participação nas rodas de conversa;
- indicação de necessidades e desconfortos;
- comunicação com professores e colegas;
- organização da rotina;
- antecipação de acontecimentos;
- expressão de sentimentos;
- solicitação de ajuda;
- participação em brincadeiras.
Durante o desenvolvimento do projeto, a EMEI Thiago Silva Santos, da rede municipal de Jacareí, colaborou como escola-piloto. A participação da unidade permitiu que o sistema fosse testado a partir de situações concretas vivenciadas por crianças com dificuldades de comunicação.
A escola não deve, entretanto, limitar a comunicação da criança ao aplicativo. Gestos, expressões faciais, movimentos corporais, vocalizações, fala, escrita e outras formas de manifestação também precisam ser reconhecidos e valorizados.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa impede o desenvolvimento da fala?
A utilização da CAA não deve ser compreendida como uma desistência da fala. Seu objetivo é ampliar as possibilidades de comunicação disponíveis para a pessoa.
Uma criança não precisa permanecer sem conseguir comunicar uma necessidade enquanto os adultos aguardam o possível desenvolvimento da linguagem oral. A comunicação é um direito e pode acontecer de diferentes maneiras.
O recurso também não deve funcionar como um exercício isolado ou como um sistema utilizado apenas para a criança responder a perguntas. Ele precisa estar presente em situações verdadeiras de interação.
Pais, professores e cuidadores podem dar exemplos utilizando os próprios símbolos enquanto conversam com a criança. Essa prática ajuda a demonstrar como o sistema funciona, sem transformar a comunicação em uma sequência cansativa de cobranças e testes.
O Papuguinho substitui o acompanhamento profissional?
O aplicativo é um recurso de apoio e não substitui avaliações ou acompanhamentos individualizados quando eles forem necessários.
Profissionais como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e educadores especializados podem colaborar na escolha dos símbolos, na organização das pranchas e na criação de estratégias adequadas às características de cada criança.
A família e a escola também desempenham um papel fundamental. São elas que conhecem boa parte da rotina, das preferências, das dificuldades e das situações em que a comunicação precisa acontecer.
Quando todos trabalham de forma articulada, o aplicativo deixa de ser apenas uma tecnologia instalada no celular e passa a fazer parte de um sistema de comunicação utilizado de maneira funcional.
Como começar a utilizar o aplicativo?
O primeiro passo é conhecer a ferramenta e observar quais situações do cotidiano geram mais dificuldades de comunicação.
No início, pode ser melhor apresentar uma quantidade menor de símbolos relacionados a necessidades e interesses importantes para a criança. Depois, o vocabulário poderá ser ampliado gradualmente.
Algumas orientações podem ajudar:
- Escolha símbolos que façam sentido para a rotina da criança.
- Utilize o aplicativo em situações naturais, e não somente em atividades dirigidas.
- Mostre como selecionar os pictogramas enquanto fala.
- Respeite o tempo necessário para a criança responder.
- Evite exigir que ela repita a mensagem oralmente.
- Reconheça e responda às tentativas de comunicação.
- Compartilhe as estratégias utilizadas entre família, escola e profissionais.
- Faça ajustes sempre que as necessidades da criança mudarem.
É importante lembrar que aprender a utilizar um sistema de CAA também exige tempo. Ninguém entrega um dicionário a uma criança e espera que ela domine todas as palavras no mesmo dia. Com os pictogramas não é diferente.
Papuguinho é gratuito?
Sim. O Papuguinho é apresentado pelos desenvolvedores como um sistema totalmente gratuito.
O projeto disponibiliza acesso ao aplicativo para Android, uma versão para utilização pela internet e o Estúdio Papuguinho, no qual podem ser produzidas pranchas de comunicação para impressão.
No site oficial, as famílias e os profissionais encontram as opções disponíveis e podem escolher a que melhor atende às suas necessidades.
Tecnologia a serviço do direito de se comunicar
Mais do que facilitar pedidos cotidianos, um recurso de Comunicação Aumentativa e Alternativa pode ajudar uma criança a demonstrar preferências, recusar algo, fazer perguntas, participar de conversas e revelar o que está sentindo.
Não se trata apenas de oferecer um aplicativo. Trata-se de reconhecer que toda criança tem algo a dizer, ainda que não consiga expressar sua mensagem pela fala.
Para que o Papuguinho cumpra essa função, será necessário utilizá-lo com intencionalidade, respeito e participação dos adultos que convivem com a criança. A tecnologia abre uma possibilidade; a comunicação se fortalece nas relações.
Onde baixar o Papuguinho gratuitamente?
Para conhecer o projeto, acessar o aplicativo, criar pranchas personalizadas ou conferir as opções de download, visite o site oficial:
Acessar o site do Papuguinho e baixar gratuitamente
Fonte das informações: Ministério da Educação e site oficial do Papuguinho.

Kátia Teixeira é pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora de temas relacionados à alfabetização e à infância. Com 16 anos de experiência na educação , compartilha conteúdos sobre alfabetização, aprendizagem, desenvolvimento e proteção da infância. É mãe de uma criança autista e acredita que toda criança tem o direito de aprender, ser cuidada, ouvida e respeitada.



